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ENTREVISTA

 

Olá caras leitoras e leitores do Futebol Alegria e Debate, hoje estamos trazendo uma com Marcelo Pereira técnico de futebol. Vamos conhecer um pouco como é a dificuldade, que as vezes nós não achamos que treinador pode passar, seja ele iniciante, amador ou profissional. Os problemas são sempre os mesmo.

E desde já gostaria de agradecer ao próprio Marcelo que com muita gentilmente nos concedeu essa entrevista.

Espero que gostem.

Nome: Marcelo Pereira

Profissão: Técnico de Futebol

O que faz atualmente: Participo de cursos específicos de formação, irei agora ao Footecom. Estudando propostas.

Site: www.jornalconhece.com.br Link Futebol Profissional

FAD: Quando começou a paixão por futebol?

MP: Começou quando era muito jovem ainda, em 1982, 83. Aos 8 anos, assisti, mesmo sem compreender direito, aquela seleção brasileira de 1982, que encantou o mundo. Na mesma época, o Flamengo de Leandro, Júnior, Adílio, Zico e Nunes. Era o futebol lúdico, jogado com alegria. Desde essa época apaixonei-me pelo futebol e os bastidores que o cercam. Ano passado, tive a sorte de rever todas as partidas da seleção brasileira na Copa de 1982. Aquilo sim era time!

FAD: Ser técnico é uma profissão muito instável e mesmo assim você escolheu segui-la. Tem alguma ração específica ou o que lhe motivou?

MP: O que me motivou foi o trabalho em si. Estar ciente de assumir os desafios de uma equipe. Mesmo instável, acredito que o tempo acaba fazendo uma peneira por si só nos profissionais que intencionam viver do futebol profissional. Os desafios são imensos, do tamanho da moral de cada um. Estar preparado para quando chegar a hora. Se a hora não chegou ainda, saber que a responsabilidade de estar preparado é somente sua. Acreditar. Mais até do que a instabilidade existe simplesmente a intenção que não acaba se concretizando, ou seja, projetos vão ficando pelo caminho…

FAD: Hoje o futebol é muita força de marcação. Você acha que essa tendência perpetuará ou ainda podemos ver um futebol de talento e individualidade?

MP: Aos poucos, essa visão vai mudando. Ainda bem! Recentemente, podemos visualizar volantes modernos que fazem bons desarmes, mas que têm qualidade para sair para o jogo: posso citar aqui o Ramires (do Chelsea) e o Paulinho (do Corinthians). Se nos lembrarmos dos dois volantes brucutus da seleção campeã em 1994, com Mauro Silva e Dunga, veremos um avanço. Treinadores afirmam que gostam do jogador que “faz o trabalho sujo”, e isso é importante sim (o desarme), mas dá para trabalhar o conceito de qualidade junto. O melhor e mais impressionante ladrão de bola atualmente é o Willians, ex- Flamengo e que hoje atua pela Udinese.

FAD: Qual a formação tática que você prefere? Qual seleção ou clube se apresenta melhor com a sua formação escolhida?

MP: Quando se é técnico, uma das primeiras coisas que a gente aprende é que não existe fórmula rígida de jogo: 4-3-3; 3-5-2; 4-3-1-2; e até brincando, o 10-1. Outra verdade é que se trabalha o elenco, não somente o time, motivo pelo qual é muito difícil ter em mente um time titular. Essas variações de jogo são concernentes à partida em si (à preparação), sendo que, se você observar atentamente, verá todas essas variantes de jogo numa mesma partida. É aquele conceito de jogo de xadrez. O time adversário avança, você compõe suas linhas de marcação. Seu time avança, avançam-se as peças. Quase sempre, trabalhamos com o 3-5-2, e lhe explico: quando você avança com um dos laterais (avançar os dois laterais ao mesmo tempo é arriscado se você não tiver uma boa contenção no meio), pois bem, quando se avança um ala, o outro preenche uma zona maior do campo defensivo, juntamente com os dois zagueiros que espaçam melhor essa linha para não deixar o time vulnerável. Encurtam-se espaços. O que é isso? É o 3 do sistema defensivo, o que pode ser preenchido por um volante no espaço de um zagueiro, que por exemplo, subiu para ser o “elemento surpresa”. Mas varia-se muito.

Gosto dos times armados pelo Vanderlei Luxemburgo, o não abrir mão de ter qualidade no meio de campo, atribuindo várias funções a um mesmo jogador. Isso é notável no trabalho dele. E gosto muito do jeito trabalhador e operário mesmo do Abel Braga, que sempre faz variações excelentes no decorrer do jogo. E é o que melhor trabalha as jogadas de bola parada…

A melhor seleção do mundo a meu ver é a Alemanha: tem um treinador moderno, o Joachin Low. Um goleiro frio, o Neuer, um zagueiro de muita classe, o Hummels, volantes que sabem jogar como o Khedira e o Schewsteiger (meia recuado e que faz bem o papel de desarme e contenção). Lahm que é um excelente ala, tanto pela direita quanto esquerda e um ataque poderoso: com Klose, Mario Gomez e Muller. E o motorzinho que é o Ozil. Um time que não ganhou nada ainda, mas pelo processo de maturação é séria candidata ao título na próxima Copa.

FAD: Em sua opinião qual melhor time e seleções do Mundo? Por quê?

MP: Assisto campeonato inglês, italiano, alemão, russo, argentino, espanhol, português, francês, holandês e outro dia assisti a um clássico de Belgrado. Mas o que gosto mais é o Campeonato Brasileiro, com as séries A, B e agora a transmissão pelo SPORTV da Série C. Gostei muito dos play-offs finais da Série C. É aquilo que mais se aproxima da nossa realidade.

Citar o melhor time é muito complicado. Existem excelentes times, tudo tem que estar dentro de um contexto. Citando as seleções, gosto da Alemanha, da Espanha (sendo o cerne da seleção os dois volantes do Barcelona Iniesta e Xaví), da Argentina, da França e Holanda. A seleção brasileira deve ser formada primeiramente.

FAD: Você gosta dos ensinamentos de Telê Santana, mesmo com o futebol sendo jogado da forma que é hoje, tem espaço para o futebol jogado pra frente?

MP: Sim, Telê Santana foi um grande treinador. O futebol tem que ser jogado pra frente. Pensar o contrário já te deixa com estigma de perdedor. Dos ensinamentos do Mestre Telê, só sinto falta hoje de uma coisa muito importante: o treino de fundamentos. Talvez os torcedores não saibam, mas tudo hoje numa comissão técnica é dividido em atividades entre o físico e o técnico-tático. Tudo muito programado e até o fisiologista (importante demais numa comissão) te dá um parecer se determinado jogador vai estourar ou não (falo do aspecto físico). Reduz-se a carga de treinamentos (até aí é o certo). Só que, se eu quiser treinar fundamentos com atletas já formados (rola um preconceito de que certamente eu estou agindo mal por dois aspectos: duvidando do trabalho da base e sobrecarregando o jogador com treinos puxados). Tudo com medida, mas não abro mão de treinar fundamentos, parar a jogada no coletivo, “puxar pelo braço” mesmo, contar com auxiliares e ver um pouco o treino de longe, de preferência numa arquibancada: aí eu tenho o olhar mais abrangente. Pode parecer bobagem, mas isso é fundamental no comando. E parte motivacional deve constar a todo instante.

FAD: A seleção brasileira é prova de que o futebol arte de antigamente está acabando. O que pode ter contribuído para isso?

MP: Historicamente, e certamente, a derrota por 3 X 2 para a Itália na Copa do Mundo de 1982. Aquele futebol arte não conquistou o título. Mas é, ironicamente, uma das melhores seleções do mundo de todos os tempos. Mas hoje não cabe muito essa expressão “futebol arte”. Nos últimos amistosos da seleção, o Professor Mano Menezes apostou na dupla de volantes Ramires e Paulinho. Dois jogadores com bastante qualidade para a função de volantes.

Agora, é preciso fazer uma autocrítica e perceber que a maioria dos nossos treinadores são covardes. Colocam três ou quatro jogadores de forte marcação no meio por medo de tomar gols, perder uma partida etc. Nunca aquela frase de Vanderlei Luxemburgo esteve tão em voga: “O medo de perder tira a vontade de ganhar”. É isso mesmo! Técnico medroso é o que mais tem por aí.

FAD: O que acha da seleção de hoje e do trabalho de Mano Menezes?

MP: Não me sinto à vontade para falar do trabalho de um colega de profissão. O Mano foi um técnico competente no comando da seleção, mas devemos ressaltar alguns aspectos: convocar 102 jogadores num período de dois anos e quatro meses mostra que ele se perdeu um pouco com dois projetos distintos: a tentativa do Ouro Olímpico e os preparativos para a Copa das Confederações e Copa do Mundo. Não temos um time formado.

A meu ver, precisamos de jogadores mais “cascudos” para vestir a amarelinha. Não se pode banalizar a seleção brasileira. Há bons jogadores de times que não necessariamente serão jogadores de seleção. Sou um pouco mais velho que você (38 anos), mas vou escalar uma seleção de excelentes jogadores da década de 80 que nunca conseguiram se firmar em uma seleção. Sim, alguns fizeram alguns amistosos, mas nunca chegaram a uma Copa do Mundo. Eis o time: Adílio, Júlio César (o Uri Geller), Mauricinho (do Vasco), Cuca (do Grêmio), João Paulo (do Guarani), Lico, Assis (parceiro de Washington no Casal 20 do Fluminense), Neto (do Guarani e Corinthians), e se fosse falar aqui, poderia citar mais uns quarenta. O que quero dizer com isso: infelizmente, hoje qualquer jogador mediano pode envergar a camisa da seleção brasileira.

FAD: Como é ser treinador num país onde o futebol é paixão e a população toda quer treinar o seu time e a seleção?

MP: Ser treinador é deixar de ser torcedor. Trabalhar o futebol profissional de dentro é ter outra visão daquela de simplesmente ir a estádio, torcer, se enfurecer, xingar e até brigar de determinados torcedores, para o qual o futebol é uma válvula de escape. Ser técnico é viver o dia a dia nos bastidores, formar e trabalhar uma equipe, saber todos os aspectos da fundamentação de um treinamento: parte física, tática e técnica, motivacional, fazer o jogador trabalhar para você. E em contrapartida, você trabalhar com e para o atleta, isso objetiva um bom comando que, junto aos demais membros de uma comissão técnica, e diretoria, sabendo de antemão do projeto de determinado clube, isso ocasiona bons resultados. O que não pode é você aceitar qualquer desafio, para conseguir emprego apenas, isso é uma furada, pois o alicerce não foi bem construído.

Quanto aos torcedores, respeitar suas manifestações, mas pontuar que quem vive o dia a dia do clube é o técnico, não o torcedor. Exemplo: por vezes o torcedor se pergunta por que determinado atleta não vem jogando. Vários motivos podem surgir; desobediência tática, pouca confiança motivacional, dentre “n” coisas.

FAD: Deixe uma mensagem para as nossas e os nossos leitores do Futebol Alegria e Debate.

MP: Quero parabenizá-los pelo brilhante espaço de discussão e idéias. Muito feliz a própria nomenclatura do site: Futebol Alegria. É isso mesmo! O futebol é um esporte de competição acirrada sim, mas não podemos perder de vista o aspecto lúdico do jogo. Ontem, para quem assistiu a Atlético- PR 1 X 1 Paraná, pôde ver o que uma partida de futebol pode nos proporcionar: emoção até aos 48 minutos do segundo tempo, jogo eletrizante, emocionante, com o Presidente do Furacão passando mal nas arquibancadas etc. Isso é alegria, isso é o cerne do futebol brasileiro, que é a emoção.