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FESTA NO PARQUE SÃO JORGE

O clube que ajudou a sedimenta um esporte trazido por ingleses em paixão nacional

Neste sábado, 1º Setembro seria o aniversário de 71 anos de meu Pai.

Mas este NÃO é o assunto deste texto; o assunto deste tecto é de um clube de futebol, surgido em São Paulo 37 anos antes. A história do Sport Club Corinthians Paulista cobre mais de um século de futebol do clube baseado em São Paulo, fundado em 1 de setembro de 1910 e reconhecido como um dos mais bem-sucedidos entre as equipes do futebol do Brasil e da América do Sul. Porém o momento de seu nascimento eram muito difíceis: por exemplo, a Ata de fundação do clube, foi escrita por um dos seus fundadores à luz de lampeões à querosene – que ficaria conhecida como “Noite dos Lampeões”.

O Cenário do nascimento do clube também era adverso: Poucos anos após sua chegada em São Paulo, o futebol tornou-se um dos esportes mais populares entre os paulistanos, tendo sua prática disseminada por diversas partes da cidade. Embora fosse jogado por todas as classes sociais, essas não se misturavam.

Em 1901, cinco clubes de origem aristocrático e burguesa fundaram a Liga Paulista de Foot-Ball (como era grafado o esporte àquela altura), a entidade que controlaria oficialmente o futebol local e organizou a primeira edição do Campeonato Paulista em 1902. Entre eles, estavam o Club Athlético Paulistano, o São Paulo Athletic Club e a Sport Club Germânia, e seus praticantes eram principalmente jovens brancos que integravam as classes mais altas, principalmente estudantes. A seleção criteriosa imposta pelos clubes da LPF, presente nos seus estatutos, propositalmente excluía times oriundos das classes populares (operários, por exemplo), que paralelamente organizavam seu próprio futebol, denominado informalmente de varzeano ou dos arrabaldes, sem contar com prestígio por parte da elite paulistana e da sua imprensa, para quem o futebol das classes populares era distinto daquele praticado pelos mais abastados.

A origem humilde (1910)

Os relatos da exibição do Corinthians londrino contra o Atlética das Palmeiras em 31 de agosto chegaram aos ouvidos de um grupo de jovens operários que sonhavam em fundar um novo time no Bom Retiro (então um reduto típico de imigrantes Italianos), empolgados e discutindo sobre os lances da derrota do time inglês. Depois daquela atuação do “Corinthians team”, não se falava de outra coisa no bairro. Na barbearia de Salvador Bataglia, a descrição dos lances era feita por Antônio Pereira, Alexandre Magnani, Miguel Bataglia e o próprio proprietário do estabelecimento, que haviam visto o duelo no Velódromo, enquanto ouviam impressionados Joaquim Ambrósio, Carlos da Silva, Rafael Perrone e Anselmo Correia.

Quando a conversa continuou fora da barbearia, até que Joaquim Ambrósio, Antônio Pereira, Rafael Perrone, Anselmo Correia e Carlos Silva pararam em frente a um terreno baldio da Rua Tietê (atual Rua José Paulino). Toda vez que passavam por ali, Ambrósio insistia na ideia:

  A gente tem que resolver logo a fundação desse time. Estamos perdendo tempo e bem podemos conseguir esse terreno ali para fazermos nosso campo. A gente procura os donos, fala com eles e tudo fica certo”.

Assim, finalmente eles decidiram fundar um clube. Rafael Perrone levantou a hipótese que a chuva poderia atrapalhar a reunião do dia seguinte, já que ela seria realizada em plena via pública, em frente ao terreno, e não havia telhado para cobrir os entusiastas.

Antes da reunião na noite do dia 1º de setembro daquele ano, aqueles jovens operários foram assistir a uma sessão com um compacto da partida do Corinthian, exibido com exclusividade no Teatro Radium. Depois, por volta das 20h30 daquela data, reuniram-se num salão de barbeiro da Rua dos Italianos, esquina com a rua Júlio Conceição, de propriedade de Salvador Bataglia, os cinco rapazes se reuniram juntamente com outros moradores do bairro para lavrar a primeira ata de fundação do novo clube.

Caminharam 800m até a esquina da Rua Cônego Martins com a Rua José Paulino, e debaixo de um lampião de gás a fundação foi oficializada. Também foi eleita a primeira diretoria, cujo primeiro presidente eleito foi o alfaiate Miguel Bataglia, além dos vices-presidentes Salvador Lapomo e Alexandre Magnani, do secretário Antônio Alves Nunes, do tesoureiro João da Silva e do procurador-geral Carlos da Silva. Como Bataglia havia aceitado a presidência do clube apenas provisoriamente, Magnani assumiu o cargo a partir de 15 de setembro, mantendo-se no posto até setembro de 1914.

A primeira partida oficial da história do Sport Club Corinthians Paulista ocorreu no dia 10 de setembro de 1910, na várzea da Lapa, contra o União Lapa Futebol Clube. Os jogadores saíram do Bom Retiro ainda na madrugada e caminharam até o bairro onde a partida foi realizada. O adversário, então uma das mais respeitáveis equipes do futebol varzeano paulistano, acabou vencendo por 1 x 0. A base daquele primeira formação corintiana era composta por seis jogadores de um time do bairro do Bom Retiro, a Associação Atlética Botafogo, mais os cinco fundadores do Corinthians. Com o tempo, vieram jogadores do Tiradentes, do Domitila e de outros varzeanos menores.

Quatro dias depois, na tarde do dia 14 de setembro, o Corinthians fez sua segunda partida amistosa e a primeira em casa, no campo do Lenheiro. No duelo contra o Estrela Polar, os corintianos venceram por 2 x 0, com um gol do centroavante Luiz Fabbi (o primeiro da história do time) e outro de Jorge Campbell. Treze dias depois, o Corinthians recebeu a Associação Atlética da Lapa, uma equipe formada apenas por atletas ingleses, e acabou vencendo por 5 x 0. Após a vitória, houve festa no bairro do Bom Retiro e a equipe foi ganhando dos populares locais. Nos dois anos seguintes, os corintianos se firmaram como uma das maiores forças, senão a maior, do cenário da várzea paulistana.

Naquele período, era comum que alguns jogadores – como Aparício, Casimiro, Amílcar e os irmãos César e Manuel (Neco) – defendessem tanto o Corinthians Paulista quanto o AA Botafogo, dependendo da data e do horário dos jogos marcados. Há relatos também que um jogador negro chamado Davi defendia tanto o Botafogo quanto o Corinthians, sendo apontado por alguns como o primeiro jogador não-branco a vestir a camisa corintiana, embora o jornalista Thomaz Mazzoni garantisse que Davi jamais jogou no primeiro quadro do clube, mas apenas no segundo, pelo temor de que, uma vez escalado, o Corinthians fosse rejeitado de suas pretensões de alcançar a elite do futebol paulista. Por sua raça e vontade vencer, foi apelidado carinhosamente naquele tempo de “o galo brigador do Bom Retiro”.

No entanto, desse período inicial da história corintiana, não há informações sobre uma série de partidas que a equipe disputou, tampouco se participou de campeonatos entre times de bairro nem como o se sustentava financeiramente.

Sabe-se que a equipe também realizou suas primeiras partidas fora da capital, como um duelo contra o Corinthians FBC, disputado no campo do bairro Guanabara, em Campinas, em 17 de setembro de 1911, que terminou com a vitória do time do Bom Retiro por 3 x 1. Era uma mostra de que o Corinthians já era um time conhecido fora da cidade de São Paulo, a ponto de um clube de outra cidade se dispor a pagar as despesas, notadamente de transporte ferroviário, para poder disputar um amistoso. Ademais, o clube já tinha outro homônimo em Jundiaí. Outro fato do período foi a tentativa do Corinthians de ingressar na LPF em 1912 para assumir a vaga do Sport Club Internacional, que se havia retirado da liga, mas acabou retornando a mesma, frustrando o sonho corintiano.

Continua…

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