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FUTEBOL: ONTEM UM ESPORTE, HOJE UM DELITO (595)

Demorou décadas, mas o mundo despertou para o pesadelo de uma das máfias mais organizadas e lucrativas de todos os tempos: a do futebol. Era um segredo de polichinelo, que pensava esconder algo tão podre e condenável quando todos já o sabiam.

Foram o biliardário Sheik do Qatar, afundado nos petrodólares e sem saber o que fazer com tanto dinheiro, e o líder russo Putin, em sua disciplinada luta por manter um poder quase absoluto, os responsáveis indiretos pela detonação da gang que dominava (e ainda domina) o mais popular esporte do planeta.

Os líderes da FIFA, um organismo dos mais poderosos e menos fiscalizados existentes, venderam a realização de Copas do Mundo para o emirado petrolífero e para o ex-império soviético. Venderam e receberam. Coisa de bilhões. Propinas para todos os dirigentes e altos executivos do organismo máximo do futebol. E daí para a explosão, via Justiça norte-americana, foi um pequeno grande passo.

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Num dia da primavera suíça, às margens do plácido lago de Genebra, alguns dos mais importantes chefões do futebol mundial despertaram com a polícia helvética e seus implacáveis colegas do FBI dentro de suas suítes do luxuoso hotel Baur Au Lac. Dos colchões de pena de ganso e dos lençóis de algodão egípcio para camas de concreto de austeros cárceres dos frios e impessoais suícos. Um pesadelo na vida de potentados acostumados a singrar os céus em jatos executivos, se divertirem com belas modelos, comerem nos melhores restaurantes e se afogarem em taças de champanhe Cristal ou em fartas doses do melhor velho malte escocês. Em segundos desceram do paraíso de vidas desregradas e opulentas para o inferno de um futuro quase certo, o de passar o resto de seus dias em prisões yankees.

Muitos são os segredos agora revelados. Os já conhecidos e os que brotam como cogumelos venenosos do tecido putrefato da FIFA, da Conmebol e das entidades nacionais em vários países: Venezuela, Brasil (da gang chefiada pelo imortal João Havelange e seu ex-genro, o bandido Ricardo Teixeira), Costa Rica, Uruguai (do rato Eugenio Figueiredo), Argentina (do já morto Júlio Grondona), e de outros da mesma extração imoral.

É muito pouco provável que o futebol passe por uma mudança ética, que deixe de servir para o enriquecimento de alguns e a lavagem de bilhões em moedas fortes, para a utilização indevida em atividades criminosas de um esporte que é a paixão dos povos. Mas, seguramente, haverá alguma mudança para melhor. Um câmbio saudável. Algo de decente num meio-ambiente onde convivem tipos humanos desprezíveis e um esporte com méritos de superação e arte.

Além dos esforços da Justiça dos EUA, através da procuradora Lynch e das investigações profundas do FBI (norteadas por algumas delações de criminosos que se dizem arrependidos mas, em verdade, querem é bem menos anos nas celas apertadas e frias de Sing Sing), colegas da imprensa estão cumprindo o seu papel com livros espetaculares como o “Ugly Game”, onde os jornalistas Heidi Blake e Jonathan Calvert, que trabalham no Sunday Times, mostram como o Qatar comprou a Copa do Mundo. A impactante obra foi publicada pela famosa editora Simon A. Schuster. Meu filho Cesar, estudante de física nuclear na Califórnia, leu, encantou-se e me repassou o livro com apenas uma observação: “irrespondível”.

Mas há coisas absurdas, como o obsequioso silêncio da imprensa paraguaia diante do destino já anunciado do ex-poderoso Nicolas Leoz, um dos capos da FIFA, que escapou de ser preso em Genebra e hoje cumpre prisão domiciliar em Assunção. Longe vai o tempo em que ele era nome de avenida no Chile e de estádios no Paraguai, recebia comendas e medalhas em países da América Latina, era o alvo de festas e homenagens nos cinco continentes. Já é passado o seu imponente jato Challenger voando com o então presidente paraguaio, o sibarita Fernando Lugo, e suas alegres prostitutas, e as portas dos palácios se escancarando à sua chegada.

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Velho e doente, o bilionário Nicolas Leoz está nas mãos de um juiz extremamente sério, profissional, imune às pressões políticas e à corrupção do dinheiro roubado. O FBI já tem pronto o plano de vôo de um de seus aviões cargueiros para levar (para sempre e para nunca mais) o homem que saqueou o futebol mundial, que exigiu dos ingleses um título (jamais concedido) de “Sir” para votar pela realização da Copa no Reino Unido, e que, em poucos meses, perderá o nome e o sobrenome, sendo apenas um número estampado em seu uniforme de presidiário nos EUA.

Não sei como irei fazer para enviar a Leoz o meu próximo livro. E nem acredito que ele queira ler “Leoz e a máfia do futebol”… Creio, mesmo, que os norte-americanos até lhe facilitem a leitura dos feitos e mal feitos de sua longa trajetória como dirigente máximo do futebol paraguaio e da Conmebol. Lá estarão seus negócios com o Qatar e a Rússia, seus negócios com o Delta Bank em Miami e com o (pasmo!) Banco do Brasil em Assunção, lavando centenas de milhões de dólares, os tempos de opulência onde ele comprava edifícios, hospitais e tudo o que lhe dava vontade com cheques da própria Conmebol. Lá estará a lembrança do tempo incrível onde ele conseguiu que um presidente do Paraguai desse imunidade diplomática à sede da Conmebol! Lá estará um tempo que passou, que acabou, que não há mais.

A morte salvou Julio Grondona, um marginal argentino que comandou o futebol platino com a fúria de um Galtieri e um sorriso de Perón. Rico, muito rico, morreu antes que conhecesse os rigores do cárcere. O uruguaio Eugenio Figueiredo, está preso em Genebra. Logo irá cruzar o atlântico norte e será dissecado pela Sra. Lynch e pelos interrogadores do FBI. Sua vida, permeada pela corrupção administrativa e o tráfico de influência, será relatada por um dos mais sérios profissionais de imprensa, o jornalista uruguaio Diego Muñoz, em um livro criterioso e revelador. Afinal de contas, ele fez história. Má história, mas história, enfim.

Na Argentina e no Paraguai os governos não demonstram muito ímpeto em limpar o futebol. O presidente paraguaio é dono de um time cujo estádio leva o nome de Leoz. Preciso falar mais? No Brasil, Dilma não demonstra ímpeto para nada, apenas para fazer mais trapalhadas, uma especialidade que a eternizará como uma infame. No Uruguai Tabaré Vasquez, correto e sério, nunca escondeu o seu horror a Figueiredo e suas praticas criminosas. E por aí vamos. O que não fizemos, o FBI está fazendo por nós.

Genebra - Suíça
Genebra – Suíça

No Brasil a coisa está um pouco estranha: há uma Comissão Parlamentar de Inquérito no Senado da República investigando a máfia do futebol. Mas o cenário de degradação moral no Brasil é tão terrível, tão escandaloso, que o ex-futebolista Romário, hoje senador, é o presidente da tal CPI. Conversando com um estimado amigo, delegado da competente Polícia Federal brasileira e que me foi apresentado por outro amigo, o saudoso Romeu Tuma (a quem inclusive dediquei um livro), recordamos a vida pregressa do “peixe” ou “baixinho”, como a antipática figura do agora político é conhecida.

Romário não deve e não pode investigar a máfia do futebol, pois esteve sempre de braços dados com ela. Como jogador – igual a outros tantos – trafegou as fortunas que ganhou a cada novo time em que foi atuar, pelos mesmos meandros delituosos que hoje custam ao jovem craque Neymar multas milionárias e sanções duras na justiça da Espanha e na receita federal brasileira pelas fraudes milionárias praticadas por seu pai e empresário, nada diferentes daquelas da máfia ou do narcotráfico. Não estivessem em jogo interesses de clubes e grandes empresários da Espanha e do Brasil, o papai de Neymar já estaria algemado e preso. Romário, também, foi apêndice de Ricardo Teixeira, imperador do futebol brasileiro por mais de duas décadas. Romário foi comensal de Nicolas Leoz. Romário fez festas (algumas impublicáveis), comendo e bebendo, compartilhando vícios e prazeres, com esses bandidos que estão presos e às vésperas de extradições pedidas pelos EUA.

Como o Conde Drácula pode investigar o banco de sangue? “Coisas do Brasil”, me responde o amigo delegado. Não é segredo para ninguém, no meio empresarial, político, financeiro e de imprensa do Cone Sul, que dezenas (talvez centenas) de jogadores de futebol esquentaram dinheiro sujo, lavaram seus ganhos em contratos obscuros, através de duas famílias de banqueiros: os Peirano, do Uruguai, e os Rohm, da Argentina. Banqueiros influentes em seus países e em todo mundo, colocaram instituições como o Banco Velox, o Banco Pan de Azucar, Banco de Santa Fé, Banco de Montevideo, Banco Comercial del Uruguay, Banco Aleman Paraguayo, dentre outros, de uma enorme teia financeira, lavando dinheiro de políticos corruptos (como Carlos Menem e outros), de dirigentes esportivos (como Nicolas Leoz, Ricardo Teixeira e outros), e de jogadores de futebol, também. Desnecessário dizer que todos esses bancos sofreram intervenções oficiais por conta das práticas criminosas que adotaram para atender essa quadrilha de clientes.

Será que o impoluto senador Romário, que quer limpar o futebol brasileiro mas não quer quebrar o sigilo fiscal e bancário da poderosa Rede Globo de Televisão, se recorda especialmente do Banco Aleman Paraguayo? E dos senhores Castillo, Sorrentino e Peterlik? E da presteza com que eles e os executivos do Banco Comercial, em Montevideo, tramitaram fortunas em contas abertas por gente que hoje urra pela moralidade? Duvido. E do Trade Comercial Bank, da família Peirano, em Cayman Island? Era lá que se “consolidava” (essa a palavra mágica!) todas as operações de lavagem de políticos, artistas, narcotraficantes, empresários e… jogadores de futebol! Jogadores brasileiros são quatro. Adivinha quem é um deles? Garanto que não é o inesquecível ídolo de minha juventude, o Garrincha, que morreu pobre.

Romário, e eu sempre admirei o seu futebol, é um hipócrita. Mas, certamente, é homem de absoluta sorte. Um extrato de conta a ele atribuída num banco controverso da Suiça italiana, o BSI, caiu nas mãos da revista Veja, outrora muito respeitada e hoje envolvida na luta política no Brasil. Romário seria dono de uns tantos milhões. Nada que não possa ser verdade para quem faturou fortunas em clubes do Brasil, Europa e Oriente Médio. Porém o senador voou imediatamente para a Suiça e voltou ao Brasil com uma foto irreverente, com os braços abertos diante de um lago, negando a tal conta e amparado por uma nota oficial do BSI.

A esquerda brasileira, no afã de golpear a revista da família Civita (aliás, parceira da ditadura militar argentina num episódio horrível, a tomada de uma fábrica de papel de imprensa da família do falecido empresário judeu-argentino David Graiver, o “banqueiro dos Montoneros”), fortalece a posição de Romário promovendo um festival nas redes sociais com a tal nota do BSI. E os inimigos da CBF e da máfia do futebol, o apoiam como se ele fosse um angelical mensageiro do Senhor na luta contra as ratazanas do esporte bretão. Que impressionante!

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A Veja não soube se defender, não questionou a postura do banco nem pediu uma investigação rigorosa. Pode não ter checado antes, mas falhou no depois, também. E no delicado momento em que a grande revista vive, tropeçou em uma simples falha de apuração desconhecendo as imensas possibilidades de que tenha havido um acerto entre as partes, o banco que administra dinheiro sujo e o depositante que jura até a morte que o seu dinheiro não é seu.

No momento de burrice coletiva vivida por quase todos os setores da vida brasileira, alguns detalhes foram solenemente omitidos. Talvez, sequer notados. Na nota oficial do BSI (http://www.romario.org/news/all/nota-de-banco-suico-confirma-que-extrato-da-veja-e-falso/) há uma sutileza: se diz que “aquele” extrato é falso e que “aquela” conta não tem o senador como titular. O banco não foi peremptório, apesar de ensaiar um teatro e enviar à justiça a informação de que o extrato publicado por Veja seria falso. E ainda há um fato curioso, no mínimo curioso: pela primeira vez na história uma instituição financeira suíça deixou o mutismo que faz parte da mítica dos banqueiros locais para defender um suposto não-cliente e negar um documento sem que a justiça tenha lhe requerido isso. Estranho, não?

Começa aí um enredo interessante: bancos suíços não enviam extratos de contas (muito menos as milionárias!) pelos correios ou sequer os imprimem. E o passado do BSI comporta muita desconfiança.

O BSI nasceu em 1873 e tem sua sede no Palazzo dei Marchesi Riva, em Lugano, na flexível Suiça italiana, menos rigorosa nos procedimentos morais e bancários que a exigente Suiça alemã (Zurich) e a amedrontada Suiça francesa (Genebra). Quem quer malandragem vai pra Lugano. Foi lá, por exemplo, que 9 em cada 10 hierarcas do regime de Strossner depositaram o fruto de 34 anos de ditadura absolutista e corrupta. E jamais, mesmo presos alguns e execrados todos, esses correntistas foram traídos pelo discreto e secular BSI.

Desde julho de 2014, o BSI é de propriedade do magnata brasileiro André Esteves. O dono do banco BTG Pactual pagou pelo BSI impressionantes US$ 1 bilhão e 400 milhões. A conta do senador moralista seria, portanto, anterior à aquisição de Esteves no cantão menos exigente da confederação helvética. Estranha e feliz coincidência para o peixe…

Esteves é o receptador (essa é a palavra correta) de campos de petróleo (e petróleo da melhor qualidade) na riquíssima e convulsionada Nigéria. Foram-lhe repassados em negociação nebulosa pela Petrobrás, antes da explosão que hoje expõe suas vísceras e a corrupção endêmica que comprometeu a saúde da gigantesca empresa. Os policiais, promotores e o juiz da Operação Lava Jato se esqueceram ou ainda não chegaram ao banqueiro-petroleiro. E não seria com um senador escandaloso, atrevido e com escassos inibidores comportamentais, como é Romário de Souza, que o exitoso André Esteves iria se confrontar. É melhor ser gentil do que comprar uma briga com um político midiático. Fui claro?

Prá que discutir com um senador que quebra um imóvel que era seu e foi tomado pela justiça e vendido para um grande empresário? E se confrontar com o impávido namorado da bela (pra quem gosta, esclareço) transexual Talita Zampirolli, uma loura estonteante fotografada de mãos dadas em lânguida troca de afagos com o guardião da moral do futebol brasileiro? Pelear-se com um homem que tem coleção de Mercedes-Benz e 250 pares de sapatos, segundo Eduardo Galeano na página 189 do seu celebrado livro “Futebol ao Sol e a Sombra”? Confrontar com o homem que teria querido ser o “cartola” do futebol feminino e suas dezenas de milhões de dólares e, diante da recusa da CBF, tornou-se inimigo implacável da mesma CBF que ele cortejava? Não, mil vezes não.

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O que Romário está fazendo é tudo o que não deve ser feito na limpeza do mais popular esporte do planeta. Trocar uma máfia escancarada por uma máfia ainda não denunciada. O Deus dos gramados, das arquibancadas e das bolas nos livre dessa derrota baseada em histórico gol contra.

Termino cheio de esperanças. Há livros desnudando a máfia do futebol.

Há poderosos presos e investigações em curso. Recuso-me a perder o amor profundo por meu time do coração, o Olimpia, e a sofrer e delirar com as derrotas e as vitórias de minha Seleção paraguaia. Algo há de mudar e pagarão caro os que converteram a digna paixão dos torcedores em negócio sujo e mafioso.

Fonte: Brasil 247

CHIQUI AVALOS
Jornalista e escritor paraguaio. Foi correspondente do jornal ABC Color em Paris e é autor do best-seller “La Otra Cara de HC”

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