Crônicas Destaque

PAI, FILHO E CORINTHIANS

Todas sabem que sou Corinthians sofro quando perder também sinto aquele alivio quando consegue sair dos momentos mais difíceis e trás uma alegria imensurável a toda nação corinthiana.

Quando começou essa paixão? De onde vem todo esse amor? No meu caso começou exatamente na final do paulista de 1982, quando o Corinthians venceu o São Paulo num jogo memorável.

O placar foi de 3×1 para o Timão com gols de Biro Biro, Casagrande (2gols), o Morumbi recebia a sua lotação máxima de 120 mil torcedores que não paravam de comemorar, tudo era maravilhoso.

Foi o jogo então que me tornou corinthiano? Não foi esse jogo, o que me fez tornar corinthiano foi a conversar que tive com o meu pai após essa partida.

Estávamos indo embora do Morumbi comemorando o título paulista e eu disse: “Pai essa foi à melhor coisa que eu vi”, estava super eufórico, via aquela massa comemorar e gritando É Campeão.

Depois de duas horas chegamos em casa, o meu pai me chamou, pois ele queria conversar comigo, eu estava preste a completar oito anos de idade, me recordo como se fosse hoje.

Ele começou: “Meu filho eu cresci numa época difícil para o Corinthians no futebol, sempre teve ótimos jogadores, mas nunca fomos campeões de nada, passamos 23 anos sem ganhar um paulista e pior chegamos perto de ser Campeão Brasileiro, fora que não ganhávamos do Santos de Pelé. Ser corinthiano era motivo de chacota de todos.”

Mesmo novo eu estava ouvindo atentamente a cada palavra, não entendia o que ele queria dizer, mas eu estava prestando atenção.

“Em 1969 foi fundada a Gaviões da Fiel que era o símbolo de torcedores que mesmo no momento mais difícil eles estavam lá, torcendo, gritando e apoiando em todos os momentos. Mas a sina do Corinthians era de não ganhar nada. Teve momentos que pensei: será que vou morrer e não vou ver o Corinthians ser campeão? Ai chegou o dia em que você nasceu. Quando vi que era um menino pensei na hora, está ai o meu sucessor. Só que a situação do Corinthians não mudou, continuava sendo desclassificado e não ganhava o Campeonato Paulista.”

Eu continuava do mesmo jeito, sentado e olhando para o meu pai contando aquela história toda, não entendi o motivo, mas escutava atentamente.

 

“Entrava ano e saia ano o calvário corinthiano continuava, era desclassificado do Brasileirão e perdi mais um Paulista. O que mais chamava atenção era que a torcida não parada de crescer. Chegou então 1976 parecia que tudo ia ser diferente chegamos a semifinal do Paulista contra o Palmeiras, mas a sina continuava e perdermos e ainda tivemos que ver o Palmeiras se campeão, mas a maior alegria foi quando a sua mãe me disse que estava grávida da sua irmã, foi uma alegria imensurável. Nesse mesmo ano o destino reservaria algo que ninguém imaginava para todos os corinthianos, o timão conseguiu chegar nas semifinais do brasileirão o jogo seria contra a “Máquina Tricolor”. O Fluminense era favoritíssimo a passar pelo Corinthians. A única diferença era a torcida que lotou o Morumbi para o primeiro jogo.”

Nesse momento pude notar os olhos do meu pai brilhando, mas ainda não podia sentir o que tudo aquilo significa principalmente para o meu pai.

“O segundo jogo seria no Maracanã e durante a semana o presidente do Fluminense começou com as provocações e dizendo que o Corinthians não aquentaria a pressão dentro do Maracanã. Essas declarações inflamaram todos os corinthianos, então foi decidido que a Gaviões iria montar as caravanas para o Rio. Nesse momento senti a necessidade de ir para o Rio de Janeiro ver o jogo, mas tinha um problema: a sua mãe, ela não gostou da idéia e para completar as coisas estava próximo do nascimento da Andréa. Não teve jeito escolhi em ir para o Rio e correr o risco de não ver o nascimento da Andréa. Então chegou 5 de dezembro que ficou marcado não só pela vitoria do Corinthians, mas sim pela tão famosa “Invasão Corinthiana” foram 70 mil corinthianos que estavam lá e tenho orgulho de dizer eu estive lá meu filho. A volta foi emocionante e a confiança era tremenda, todos achavam que seriamos campeões. Não pude ir nos jogos da final, pois a Andréa estava para nascer e sua mãe não deixou eu ir desta vez. Assisti pela televisão e foi outra decepção perdemos a final para o Internacional, a triste era notável em todos os corinthianos, mas a sina continuava.”

A conversa teve uma pausa para que ele falasse do nascimento da Andréa que foi algo maravilhoso, nem senti ciúmes naquele momento, pois eu só tinha oito anos. (riso).

“1977- ninguém imaginava que esse seria um ano inesquecível para a torcida corinthiana, podemos dizer mais que inesquecível entrou para a história do Corinthians. O time chegou à final do Paulista, era algo inédito já se passavam 23 anos sem poder sentir um titulo próximo como esse, o time da final era a poderosa Ponte Preta, o jogo só foi decidido no terceiro e eu não deixei de ir a nenhum. Não podia deixar de registrar esse momento histórico para o Corinthians. O Corinthians venceu o primeiro jogo por 1×0, perdeu o segundo por 2×1 o medo bateu, mas a torcida não desistia. Então chegou o dia 13 de outubro de 1977 o jogo que decidiria quem seria o Campeão daquele ano. Quando Basílio fez o gol não consegui comemorar, pois alegria avia me paralisado depois do gol começou a contagem regressiva e todos esperavam o apito fui do Dulcídio Wanderley Boschilia que era o arbitro. Quando ele pegou a bola e encerrou o jogo comecei a chorar. Cheguei em casa no dia seguinte, 14 de outubro por volta das 16h, nem fui trabalhar só comemorando,foi algo que não esqueço até hoje. ”

Era quase 22:30h do dia 12 de dezembro de 1982, mesmo com oito anos de idade entendi o que significava o choro do meu pai naquele momento. Aquilo marcou para mim e daí pra frente pôde entender o que era ter Paixão pelo Corinthians, o que é ser Corinthiano e o que é torcer por um time.

Hoje levou avante a bandeira que o meu pai me ensinou “você não vira corinthiano, você nasce corinthiano”.

“Corinthians minha vida, Corinthians minha historia, Corinthians meu amor”.

Escrito por André Soares