Colunista Bruno Pavan Destaque

VAI CORINTHIANS

Vai passar. Obrigado Corinthians. Obrigado Chico Buarque

Vai passar nessa avenida um samba popular. O mais popular da cidade. Aquele que coloca o mais rico empresário ao lado do mais humilde catador de lixo. O que estampa os mesmos sentimentos no diferentes rostos de uma nação de 30 milhões.

Cada paralelepípedo da velha cidade esta noite vai se arrepiar. Uma quarta-feira diferente de todas as outras. Que seria histórica por si só. A apreensão estava nos olhos de quem tem um mínimo de interesse pelo esporte bretão. Ou na espera de um título, ou no aguardo de que o jejum se mantesse.

Ao lembrar que aqui passaram sambas imortais. Que aqui sangraram pelos nossos pés. Que aqui sambaram nossos ancestrais. De Rivelino a Marcelinho Carioca. De Basílio a Tupãnzinho. De Doutor Sócrates e Ezequiel. Sem medir tamanho, sem medir importância, todos esses passaram de alguma forma pela história dessa paixão em forma de time.

Num tempo página infeliz da nossa história. Ah, um tempo em que pênalti não entrava, que zagueiros erravam nas piores horas, em que chegar junto era sinônimo de desiquilíbrio. Que a torcida se enervava. Que os onze em campo tremiam quando tinham que se mostrar fortes.

Passagem desbotada da memória. Das nossas novas gerações. Uma geração que acostumou a ganhar. E uma pequena geração que, mesmo sem entender muita coisa, foram testemunhas da história. Da cena que eu mesmo presenciei em que uma criança que devia ter uns 2 anos olhava com atenção para as histórias que os mais velhos contavam, de como era difícil passar todo esse tempo sem essa conquista. De como era sortudo por viver em uma geração que não saberá o que é não ter esse título.

Dormia a nossa pátria mãe tão distraída. Sem perceber que era subtraída. Em tenebrosas transações. Aí eu tenho que voltar no tempo. E em outra música de Chico: “Tem mais é que ser bem cara de tacho. Não ver a multidão sambar contente.” Em uma época cheia de glórias, mas escassa de democracia. O time do povo ficava na mão de um tirano por mais de duas décadas.

E um dia afinal. Tinha o direito a uma alegria fugaz. Uma ofegante epidemia. Que se chamava carnaval. Ter o direito a esquecer que ganha pouco, que sua luta nem sempre é valorizada, que abre mão de coisas para se alienar entre casa e trabalho. Um direito de extravasar e levar a sério (e muito) uma coisa que “é só um esporte”. O seu carnaval. Onde nada dá errado. Onde um símbolo é motivo de respeito. Ele se orgulha do seu feito. Ele estava lá dentro de campo. Ele chorou. Ele bateu no peito. Ele xingou. Ele ganhou aquele título. Quem há de falar o contrário?

Meu Deus vem olhar, vem ver de perto uma cidade a cantar. A evolução da liberdade. Até o dia clarear. Tome a cidade, povo, ela é sua. Brinque, grite, dance. Abrace, beije, pule. Acredite, sonhe, chore.

Vai passar. Já passou. Vai Corinthians. Foi Corinthians!!!!!!!!!!!!!!!!!

A ideia de fazer esse texto surgiu de outro, muito melhor, do Mauro Beting na semana passada. Clique aqui para lê-lo. http://blogs.lancenet.com.br/maurobeting/2012/06/28/romaria-boca-1-x-1-corinthians/

Bruno Pavan

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